O vale do Itajaí, maior pólo têxtil da América Latina

O vale do Itajaí, maior pólo têxtil da América Latina

O pólo têxtil do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, teve sua origem ligada à imigração alemã do século XIX, com a chegada de artesãos e pequenos empresários à região. Muitas das empresas ainda em funcionamento originaram-se da produção artesanal de camisetas feitas com fios produzidos pelos próprios artesãos. Por essa razão, associa-se usualmente o desempenho da região a seus traços socioculturais. Entretanto, esse perfil não se reverteu em benefício da cooperação empresarial, segundo a análise de GARCIA.

Tendo como centro a cidade de Blumenau, a indústria têxtil expandiu-se para outras cidades, dentre as quais se destacam Brusque, Gaspar, Ilhota, Jaraguá do Sul, Pomerode, Indaial, Timbó, Rodeio e Ascurra. O pólo alcançou projeção econômica no cenário regional e nacional, respondendo por 65% da economia da região e exportando um quarto de sua produção. Esse sucesso se deve à opção pelo segmento de produtos de algodão, visto ser esse mercado menos competitivo do que o mercado de produtos de fibras sintéticas. Por essa razão, foi menos afetado pela abertura das importações do que o pólo têxtil de Americana, no qual predomina a produção de tecidos de fibra sintética.

Quanto à estrutura produtiva, as atividades do pólo estão ligadas basicamente a dois segmentos: malharia e cama, mesa e banho. O segmento de malharia conta com algumas empresas de grande porte, que estão entre as maiores produtoras do país nesse ramo: a Hering e a Sul Fabril em Blumenau; a Marisol e a Malwee em Jaraguá do Sul.

No ramo de cama, mesa e banho, as empresas de grande porte a ele ligadas exercem liderança nacional e são também as responsáveis pela exportação do setor: Teka, Artex, Karsten, Cremer e Buettner. Os segmentos de malharia e de cama, mesa e banho são os mais fortes da indústria têxtil da região, devido à predominância de matéria-prima, fibras naturais de algodão. A esses ramos de atividade incorpora-se o ramo de confecção, que envolve um grande número de empresas de pequeno porte, que se dedica à produção de roupas de malha.

Do ponto de vista estrutural, o segmento de malharia distingue-se por seu caráter dual, uma vez que, ao lado das empresas de grande porte, nas quais está concentrada a maior parte da produção da região, um grande número de empresas de pequeno porte divide a parcela residual do mercado local. A atratividade desse segmento para as empresas de pequeno porte consiste nos baixos níveis de investimento exigidos emmáquinas e equipamentos e capital de giro, além de permitir produção em pequena escala. Essas condições favorecem ainda o desenvolvimento de um mercado informal, composto por um tipo de empresa de pequeno porte sem condições de cumprir com os compromissos fiscais. Segundo GARCIA (1996),somente na cidade de Brusque há em torno de 750 estabelecimentos industriais informais e, em Blumenau, pelo menos 400.

Outra característica da estrutura do segmento de malharia é a verticalização das empresas de grande porte, que engloba toda a cadeia produtiva, iniciando-se pelo processo de fiação do algodão e culminando com a confecção e acabamento da malha, podendo ainda se estender para a distribuição, nos casos em que as empresas mantêm seus próprios pontos de vendas. Nesse segmento, a inserção dessas empresas na cadeia produtiva se dá na forma de especialização em uma das etapas do processo produtivo, como fornecedoras das empresas de grande porte. Aponta GARCIA (196) que a taxa de subcontratação é bastante baixa e as relações não são reguladas por contrato formal, gerando incerteza quanto à continuidade de fornecimento, motivo de conflito entre as partes.

No segmento de cama mesa e banho, a produção praticamente se concentra em empresas de grande porte, por tratar-se de atividade que exige elevados investimentos em equipamentos especializados e em tecnologia sofisticada, a exemplo do emprego de dispositivos microeletrônicos necessários para a obtenção de ganhos de escala e flexibilidade, garantindo às empresas maior competitividade em nível internacional. Os elevados custos dos equipamentos e a necessidade de atualização tecnológica permanente inibem o acesso de empresas de pequeno porte a esse mercado. Além desses obstáculos, essas empresas enfrentam dificuldades de natureza mercadológica, principalmente com relação ao desenvolvimento de marca conceituada e à criação de canais de distribuição dos produtos.Nesse segmento, as empresas de grande porte experimentaram a estratégia de verticalização para superar dificuldades com o fornecimento de fios de algodão, preocupação que levou algumas delas - a Teka e a Artex, por exemplo - a ter seu próprio cultivo de algodão, em épocas críticas como a da década de 1980.

Vista sob a ótica da cooperação empresarial, a dinâmica do pólo têxtil do Vale do Itajaí não revela a presença de integração cooperada entre as empresas. As inovações ficam restritas às empresas de grande porte, mantendo as empresas de pequeno porte à margem do processo. Também não ocorre a transferência de inovação necessária ao desenvolvimento da pequena empresa, indicando que seu papel, na posição de subcontratadas, fica restrito a atividades pouco relevantes e sem possibilidade de crescimento.Uma outra questão relevante é que não se constata atuação cooperada entre as próprias empresas de pequeno porte, que atuam isoladamente procurando aproveitar-se individualmente de alguns espaços de mercado deixados pelas empresas de grande porte.

Também não foi identificada, no pólo têxtil do Vale do Itajaí, a distribuição de tarefas entre as empresas e a interligação entre elas, outro indicador de configuração de rede de cooperação produtiva. Em lugar disso, as empresas de pequeno porte colocam-se comoconcorrentes, disputando um mesmo mercado. O estudo revelou ainda a ausência de ação integrada entre empresas e instituições deensino/treinamento e de pesquisa, nos níveis requeridos para uma cooperação efetiva. No caso das relações com instituições de ensino e treinamento, a ausência de um sistema voltado para a capacitação continuada de profissionais especializados, requeridos pela indústria local, obriga as empresas a assumirem as tarefas de treinamento de seu pessoal. Nesse caso, as empresas de pequeno porte são duplamente penalizadas por não terem acesso à atualização e, sendo impedidas de aprimorar suas competências, acentua-se a dualidade.

Conclui-se que, no Vale do Itajaí, as empresas de pequeno porte constituem um universo à parte e, ao contrário dos distritos italianos, as empresas não transformaram a ação cooperada em diferencial de competitividade e garantia de sobrevivência.

Considerações finais

O estudo constatou que nos dois pólos brasileiros focalizados não foi identificada uma participação ativa da esfera pública, quer através da formulação de políticas de apoio às empresas de pequeno porte, quer na forma de fomento à cooperação empresarial. Considerando que a definição de políticas e o suporte de instituições governamentais são fundamentais para a sobrevivência das redes de cooperação, deve-se enfatizar que a intensidade do êxito alcançado pelas políticas depende em grande medida do grau de sua sensibilidade e de sua capacidade de ajuste às condições ambientais. E, na medida em que se descarta a possibilidade de configuração de redes de cooperação, a sobrevivência das empresas brasileiras de pequeno porte coloca-se como uma expectativa remota, caso se mantenham as condições vigentes. Merece destaque, nesse contexto, o fato de a cooperação empresarial ainda ser um valor pouco desenvolvido no meio empresarial brasileiro. Apenas quando ele for assimilado poderá ser reproduzida, em nosso país, a experiência da Emilia-Romagna, na qual considera-se que o êxito das políticas foi maior pelo fato de a cooperação ser uma prática histórica, um traço cultural. A postura cooperada é pré-requisito para o desenvolvimento do processo.

Da mesma forma, a interação entre as esferas empresarial e educacional, nas experiências brasileiras enfocadas, fica restrita a alguns casos localizados, não se guiando por orientações políticas mais abrangentes.Face a essas evidências, as empresas nacionais de pequeno porte revelam-se como um segmento bastante frágil, distante do papel inovador desejável uma vez que, mesmo nas concentrações que se destacam no contexto econômico nacional, persistem situações de carência de mão-de-obra qualificada e de ausência de apoio institucional e governamental. Considerando ainda que são poucas as concentrações empresariais nacionais como as aqui analisadas, tem-se uma dimensão da vulnerabilidade das milhares de empresas de pequeno porte dispersas pelo território brasileiro e, com elas, o destino do elevado contingente de mão-de-obra delas dependente.

Extrato de A COOPERAÇÃO EMPRESARIAL COMO FATOR DE FORTALECIMENTO DAS EMPRESAS DE PEQUENO PORTE de Ana Maria Romano Carrão, PhD. (UNIMEP)

Voltar à página sobre a indústria têxtil e de confecção

Originalmente publicado em 2005

Gostou da matéria? Venha ler outros artigos e compartilhe nas suas redes sociais:

Twitter Compartilhe no Twitter
Facebook Compartilhe no Facebook.
Linkedin Me procure no Linkedin.
Foursquare Também uso o Foursquare.
Slideshare Também uso o Slideshare.
Scribd Também uso o Scribd.

Permalink: 

Diversos

Varejo Fale comigo Empresas Livros BizAgi BPM Modeler

Consultoria

Sua empresa cresceu ultimamente et você não consegue mais controlar os custos? Implemente as metodologias TCM, BPA, CRM e WPM!

Contato

Meu serviço de consultoria em Softwares de Gestão & Processos de Negócio atende as Pequenas e Médias Empresas da Região metropolitana de Curitiba, Paraná.

Telefone: (41) 3015-0705
Celular: (41) 9 9135-3323 VIVO
E-mail: Contato